O mercado brasileiro de investimentos vive uma inversão inédita que reflete o impacto do ambiente econômico sobre a alocação de capital. Pela primeira vez, os fundos de special situations, voltados a empresas em dificuldade financeira, processos de reestruturação e ativos estressados, passaram a reunir mais recursos disponíveis do que os tradicionais fundos de private equity, que buscam participação em companhias com potencial de crescimento. A mudança altera a composição do dinheiro no mercado e reforça o peso das condições macroeconômicas nas decisões dos investidores.
Segundo levantamento da Spectra, os fundos de special situations somavam R$ 17,4 bilhões em capital disponível em junho, ante R$ 14,6 bilhões dos fundos de private equity. A diferença de R$ 2,8 bilhões marca uma inversão inédita no país e sugere uma mudança na percepção de risco e retorno. Em um cenário de crédito caro e crescimento mais limitado, empresas sob pressão financeira passam a representar oportunidades mais atraentes para parte relevante dos investidores.
A mudança ocorre após um longo período de juros elevados, que encareceu o custo do dinheiro e dificultou o acesso das empresas ao crédito. A Selic chegou a 15% ao ano em junho de 2025 e permaneceu nesse nível até o início de 2026. Depois, começou a recuar gradualmente, chegando a 14,25% em junho e a 14% em agosto. Mesmo com a queda, o custo financeiro segue alto para companhias que precisam captar recursos ou refinanciar dívidas.
A pressão sobre as empresas ajuda a explicar o avanço das estratégias ligadas a special situations. Dados da Serasa Experian mostram que 9 milhões de CNPJs estavam negativados em maio de 2026, enquanto o volume de dívidas atingiu R$ 229,9 bilhões, ambos em nível recorde. Em média, cada empresa inadimplente acumulava quase sete dívidas em atraso, em um ambiente marcado por restrição de crédito e dificuldade de recomposição de caixa.
“O crescimento desse mercado mostra que as condições econômicas estão produzindo mais oportunidades em situações de estresse do que em ciclos de expansão”, afirma Victor Mariz Taveira, economista e CEO da Acrux Capital. Para ele, a comparação entre as duas classes de fundos é simbólica porque revela uma mudança na natureza do capital disponível. Enquanto o private equity tradicional procura negócios com espaço para ganhar valor, os fundos de special situations apostam na recuperação de empresas pressionadas.
A combinação de endividamento elevado, crédito restrito e custo financeiro alto também aparece nos processos de recuperação judicial. Em 2025, 2.466 empresas entraram em recuperação judicial no país, o maior número desde o início da série histórica da Serasa Experian. O avanço de 12,9% em relação a 2024 indica que mais companhias precisam renegociar passivos, preservar caixa ou buscar alternativas para reorganizar sua estrutura financeira.
Para Mariz Taveira, uma das razões centrais para esse cenário está na mudança do custo do crédito empresarial. Em fevereiro de 2021, com a Selic em 2% ao ano, a taxa média do crédito livre às empresas era de 13,8%. Em maio de 2026, essa taxa chegou a 25,2% ao ano, enquanto a Selic estava em 14%. “Um projeto que antes superava o custo de capital pode deixar de ser viável simplesmente porque o dinheiro ficou muito mais caro”, afirma.